sexta-feira, 9 de setembro de 2011

as criaturas da noite

naquele dia, enfatigada e insone, resolvi espreitar pela janela. lá fora, o tempo mais fresco me impeliu a pular da janela, sem nem imaginar como poderia voltar. o chão, frio, abraçou meus pés descalços, e não sei se imaginei um vento ou se o tempo resolveu ser gentil. os vizinhos por algum motivo mantinham as janelas acesas; nas paredes, lagartos ou sujeira. no topo na casa havia uma espécie de protuberância, não sei se algum detalhe que falhei em perceber ou simplesmente uma coruja, estática, imponente, vigiando.
no jardim, os muros davam para o infinito, e eu podia perceber pela imensidão e cor de céu entrevistos, se imiscuindo nas telas de proteção. pisei na grama e meus pés continuaram os mesmos, mas por precaução resolvi passar para o piso, na varanda, onde rapidamente vi uma lesma vindo na minha direção. não me abalei, mas tive de desviar porque ela logo ultrapassou todo o caminho e seguiu grama afora. uma lesma rápida.
vendo toda sorte de pequenos bichinhos de formas e cores estranhas, alguns beirando o xadrez, resolvi retornar ao meu aposento, quando percebi um desnível: a volta não seria tão fácil quanto a ida. pensei em gritar, chorar, tomei três impulsos e nada. a janela era alta. pensei em nunca mais voltar, caminhando madrugada afora. pensei na coruja e no medo de um ataque súbito. quando o mundo cai em desordem, o que esperar?
por sorte ou por acreditar muito, tomei um impulso maior (ou minhas pernas alongaram por alguns segundos), consegui subir, vacilei um pouco por conta do esforço e acabei sentando por uns minutos na janela. a minha janela. com um telhado e um andar debaixo. com árvores e inocências diversas. com ecos de passados ainda mais distantes, de todas as janelas de casas pacatas e chalés, a janela prototípica. exausta, fui dormir. desta vez, sem sonhos.

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